quarta-feira, abril 14, 2021
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Realidade X Ficção

Sugeri a grupo de amigas que assistisse à Rainha do Sul, uma série de quatro temporadas, protagonizada por Alice Braga, exibida numa TV por assinatura.

Em conversa, uma das minhas amigas me disse que eu sempre sugeri filmes e atrações com viés social, dando a entender que tal indicação fugira à regra.

Parei para analisar por que a trama me chamou tanta atenção à ponto de recomendá-la, já que cenas de derramamento de sangue são uma constante, incomodando minha alma. Não demorou para lembranças das visitas ao presídio feminino virem à tona.

No início da minha carreira, 21 anos atrás, atendi duas bolivianas que cumpriam pena por tráfico internacional de drogas. Elas receberam proposta para transportar cocaína em troca de uma quantia equivalente a três salários-mínimos. Quem em sã consciência aceitaria, sabendo que se fosse pega(o) em flagrante poderia cumprir pena de 3 a 15 anos de prisão? E o que é pior, num país completamente estranho.

A fundamentação da sentença e do acórdão (decisão em grau de recurso) apontava que a motivação para o crime era o lucro fácil.

Eu não enxergava daquela forma e jamais reduzi um ser humano ao seu erro. Durante as entrevistas conseguia ouvi-las sem julgamentos. Cada uma delas tinha uma história de violência intrafamiliar e de privação material para contar.

Tereza Mendonza, personagem interpretada pela atriz brasileira (creio que a escolha não foi por acaso, trata-se de legítima representante da América Latina) é uma mulher, jovem, bonita que opta por não utilizar seus atributos físicos para se manter. Trabalha como cambista numa cidade pobre do México até conhecer Güero, que a defende do assédio sexual de um de seus clientes.

A mexicana que jamais tinha sido tratada com respeito por homem nenhum se apaixona por Güero, um dos empregados de Vargas, chefe de um poderoso cartel.

Ao longo dos episódios, o folhetim, baseado num romance do escritor espanhol, Arturo Pérez-Reverte, mostra a origem dos personagens, como e porque se envolveram com o tráfico, e dele não conseguiram mais sair; revela através de suas cenas a exploração do corpo da mulher, hora usado como esconderijo de entorpecente, hora, como fonte de prazer, hora como trabalho escravo para empacotar, armazenar e distribuir drogas.

E não para por aí. A candidatura de Vargas ao cargo de governador de Sinaloa traz à baila os bastidores das relações de poder, culminando com a revolta de sua esposa, Camila, que resolve sair da sombra do marido e assumir os “negócios da família”.

Rainha do Sul revela de forma fictícia os acordos que são realizados entre “os mocinhos” e “os bandidos” para satisfazer a opinião pública passando longe de se preocuparem com o bem comum. Aborda a dualidade entre o bem e o mal, o certo e o errado.

Ainda não terminei de assistir à série. Talvez eu me arrependa de escrever o que vem na sequência. Por incrível que pareça, Tereza Mendonça, após se transformar numa mula do tráfico, é a personagem símbolo da ética, demonstra lealdade com o empregador(a), amor pelas(os) amigas(os), piedade para com os(as) inimigos(as) e mantém sua palavra ainda que saia perdendo.

Que março seja um mês de reflexão, que este ano seja de fortalecimento dos vínculos interpessoais; que saibamos diferenciar o que é realidade do que é ficção.

Tânia Regina de Matos é defensora pública de segunda instância, integrante do GAEDIC-Mulher.

 

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