Daniel Vorcaro Revela Pagamento em Dinheiro Vivo para Filme de Lula e Esquema com Padilha e Vaccari por Fundos de Pensão
Em áudios, documentos e mensagens obtidos por VEJA, dono do Banco Master afirma ter repassado cerca de R$ 30 milhões por fora ao Instituto Lula em troca de acesso a Previ, Petros e Postalis; anexos foram levados à PGR e descartados por falta de provas de entregas em espécie.
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Por Da Redação
09/10/2026 às 11:36
Foto: CONFISSÃO - O banqueiro: áudio sobre Okamotto e o Instituto Lula e o documento no qual cita pagamento de 30 milhões de reais (Ana Paula Paiva/Valor/Agência O Globo/.)
Como um dos maiores ativos em sua trajetória no mundo financeiro, Daniel Vorcaro cultivou uma impressionante teia de relações com autoridades de diversos espectros no país. O dono do Banco Master cooptava poderosos a partir do pagamento de milionárias propinas e festas luxuosas quase sempre animadas por jovens garotas de programa de diferentes cantos do planeta. As provas colhidas pela Polícia Federal mostram que o banqueiro, preso desde março em Brasília, sob acusação de protagonizar uma das maiores fraudes bancárias da história do país, conversava com líderes partidários de todas as correntes políticas, do PL ao PT, e tinha “irmãos” nos três Poderes da República, graças aos laços formados pela força sedutora do dinheiro.
Desde a eclosão do escândalo, Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, usou o caso para fustigar adversários metidos com o banqueiro, incluindo o senador Flávio Bolsonaro, flagrado pedindo milhões de reais ao bilionário para supostamente financiar o famoso filme Dark Horse. Em entrevista recente, o petista declarou:
“Vorcaro não era apenas um ladrão, era um mágico.”
Na ocasião, Lula acrescentou ainda que a investigação precisa prosseguir, “doa a quem doer”. No meio de um grande clima de degradação moral, para todos os efeitos, o presidente da República estava fora de quaisquer acusações envolvendo Vorcaro. Não mais.
VEJA teve acesso a relatos feitos pelo banqueiro nos quais ele revela ter negociado com o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto o pagamento para conseguir acessar os cofres dos fundos de pensão de servidores federais controlados pelo petismo. Segundo conta o banqueiro em um áudio e em documentos obtidos pela reportagem, seriam 30 milhões de reais em espécie, pagos por fora ao Instituto Lula, gerenciado pelo diretor e amigo do presidente, Paulo Okamotto, destinados a financiar a produção de um documentário sobre Lula no exterior e mais um valor não revelado pelo banqueiro pago diretamente para a entidade.
Vorcaro juntou detalhes dessa história num anexo que foi levado à Procuradoria-Geral da República (PGR). A Procuradoria não levou adiante o caso, sob a justificativa de que não haveria provas suficientes da história, tendo em vista que os pagamentos teriam sido realizados em dinheiro vivo. A defesa de Vorcaro contra-argumentou, afirmando que o banqueiro possuía mensagens de WhatsApp, registros das pessoas encarregadas de retirar o dinheiro vivo e a relação de lugares e rotas utilizadas por operadores nas entregas das cédulas. Apesar das alegações da defesa, a história não foi adiante no órgão ministerial.
A Intermediação com Caciques do PT e o Filme no Exterior
A confissão de Vorcaro envolve outros personagens graúdos da cúpula petista. De acordo com o banqueiro, a aproximação com o partido foi arquitetada por seu sócio, o então CEO do Master, Augusto Lima, que contou com o então líder do governo Lula no Senado, Jaques Wagner, para intermediar o primeiro encontro com João Vaccari Neto. Os fatos constam registrados em anexo levado à PGR em junho passado — ocasião em que a sua segunda proposta de delação premiada acabou descartada.
Em seu relato formal, o banqueiro narrou:
“O meu então sócio, Augusto Lima, através dos caciques do PT da Bahia, se reuniu com João Vaccari Neto. Nesse primeiro encontro ficou aventado que, para que houvessem votos suficientes para o nosso credenciamento junto aos fundos de pensão do Banco do Brasil, Caixa Asset e Previ, deveríamos fazer os seguintes adiantamentos: um pagamento por fora, ou seja, por espécie, na ordem de aproximadamente 30 milhões de reais para cobrir despesas de um documentário no exterior que estava sendo gravado sobre o Lula, e pagamento de valores ao Instituto Lula.”
A obra cinematográfica à qual Vorcaro se refere é o documentário Lula, dirigido pelo cineasta norte-americano Oliver Stone, que contou com depoimentos de amigos e aliados próximos do presidente, como o advogado Walfrido Warde.
Além dessa quantia inicial de cerca de R$ 30 milhões, Vorcaro conta que Vaccari exigiu o repasse de uma taxa fixa de 10% de tudo o que a instituição financeira captasse junto aos fundos de previdência de funcionários da Caixa, do Banco do Brasil, da Petrobras (Petros) e dos Correios (Postalis). Pelas projeções do arranjo, caso a engrenagem tivesse funcionado plenamente, o petismo embolsaria R$ 1 bilhão em propinas, enquanto Vorcaro faturaria aproximadamente R$ 9 bilhões na mesma esteira de operações.
Em gravação de áudio obtida pela reportagem, Vorcaro detalha os bastidores da negociação com o ex-tesoureiro do PT e traça um comparativo direto com o apoio prestado ao projeto cinematográfico ligado a Jair Bolsonaro:
“Banco do Brasil a gente estruturou isso com ele. É… O Augusto adianta ali para o Okamotto do Instituto Lula… E aí tem o negócio do filme também. O cara pede para colocar dinheiro no filme do Lula. Tudo no… (inaudível) O filme do Lula eu coloquei acho que até mais, eu acho que dá até mais. Só que o do Lula foi por fora, foi errado. O do Flávio não foi porque foi patrocínio, foi patrocínio normal.”
DISCURSO – Lula: ele vem usando o escândalo para atacar adversários na campanha (Pablo Porciuncula/AFP)
A Entrada de Padilha, Olavo Noleto e o Gabinete no Planalto
Na confissão, Vorcaro relata que o então ministro da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República, Alexandre Padilha, o então secretário-executivo da pasta, Olavo Noleto, e dois operadores vinculados à dupla também atuaram no esquema para abrir as portas dos fundos estatais. O banqueiro contextualizou:
“No fim de 2023 e início de 2024, formei uma equipe interna no Banco Master para captação institucional junto a novos produtos financeiros através dos fundos de pensão do Governo Federal… Com isso, eu logo passei a receber propostas espúrias (‘as mordidas’) de políticos e emissários desses.”
O banqueiro narrou que o Master partiu para a abordagem direta aos presidentes dos fundos durante o primeiro semestre de 2024. Nessa fase, surgiu a figura de um operador petista identificado como “Júlio”, que possuía livre trânsito no gabinete de Padilha dentro do Palácio do Planalto. Mensagens extraídas do aparelho celular de Vorcaro pela Polícia Federal confirmam que Júlio o apresentou a Olavo Noleto, braço direito do ministro.
A aproximação foi comemorada por mensagem de texto pelo empresário Walfrido dos Mares Guia, ex-ministro de Lula e parceiro comercial de Vorcaro em outros empreendimentos:
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“Olavo me enviou mensagem falando que gostou muito de você.”
Na sequência dos acontecimentos, o banqueiro compareceu pessoalmente ao Palácio do Planalto para conhecer Alexandre Padilha e teve pelo menos dois jantares com o titular da pasta enquanto buscava viabilizar as aplicações das estatais:
“Nesse dia, estavam também o assessor Olavo, Fernando, o primo desse Olavo, e o próprio Júlio. Nessa conversa, Padilha mais ouviu do que falou, mas afirmou que ‘o que eu tratasse com Olavo seria como se eu estivesse tratando com o próprio Padilha’.”
Após essa audiência inicial, Vorcaro afirma que abriu as portas de sua residência particular para receber Júlio, Olavo e seu primo Fernando em uma rodada mais restrita:
“Júlio, Olavo e seu primo Fernando foram em minha casa para uma conversa aberta: ‘só haveria um jeito de entrar na Previ, Petros e Postalis: mediante pagamento de propina também na ordem de 10% de tudo o que o banco captasse’.”
ARTICULAÇÃO - Padilha: encontro com Vorcaro e reunião com o presidente em meio ao esforço para abrir os cofres dos fundos de pensão (Gustavo Bezerra/.)
Pressão por 'Boletas', Lista Exaustiva e Cobrança de R$ 500 Mil
Firmado o acerto de 10%, o intermediário Júlio deu início às tratativas em favor da instituição financeira. Trocas de mensagens obtidas pela PF revelam que Vorcaro esteve pessoalmente na sede do Postalis, em Brasília, e articulou reuniões com as cúpulas da Petros e da Previ por meio de interferências atribuídas a Padilha via Noleto.
Em diálogo datado de 8 de abril de 2024, a urgência para destravar as operações ficou explícita:
Daniel Vorcaro: “O e-mail que pediram Petros.”
Júlio: “Já repassei. Agora é o amigo com dever dele. Ontem estive com ele.”
Daniel Vorcaro: “O da Petros já foi? Cobrando?”
Júlio: “Já sim.”
Daniel Vorcaro: “Vamos pressionar pra boletar. Postalis evoluiu?”
Júlio: “Evoluiu. Mandando e-mail também. Do BB essa semana resolve. Semana que vem reunião lá. Aí alinho contigo na sua agenda.”
Daniel Vorcaro: “Vamos tentar concluir os que abrimos.”
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Para que as movimentações fossem concretizadas, o Master dependia de um requisito administrativo fundamental: a inserção na "lista exaustiva", relação governamental oficial que discrimina as instituições financeiras aptas a receber aportes e gerir recursos das fundações de previdência das estatais. O credenciamento oficial ocorreu em 29 de abril de 2024. A confirmação foi transmitida ao banqueiro pelo sócio Augusto Lima:
Augusto Lima: “Entramos na lista exaustiva. Resolvido.”
Daniel Vorcaro: “Você é foda.”
No mesmo dia da publicação que autorizou o Master a receber ativos dos fundos, o operador Júlio cobrou um adiantamento de R$ 500 mil a título de propina. Ao pedir o valor, ele justificou:
“Daniel, desculpa tá apertando, mas é que você é a única pessoa que eu possa falar isso!! Preciso ver se você consegue me ajudar… Quero ir pro jantar tranquilo.”
Vorcaro efetuou o pagamento e advertiu o interlocutor:
“Quero ver agora você virar uma boleta de verdade.”
Em resposta, Júlio garantiu:
“Pode deixar. É empenho de vida, Daniel, isso.”
Dois dias após a autorização governamental, um jantar reuniu Padilha, Olavo e Júlio na residência de Vorcaro para celebrar o andamento dos negócios.
O Vazamento na Caixa Asset e o Recuo dos Gestores
O plano, porém, começou a desmoronar pouco mais de um mês depois. Na primeira investida do Banco Master para alocar R$ 500 milhões em letras financeiras (LFs) na Caixa Econômica Federal, o movimento foi exposto na imprensa. Em 12 de julho de 2024, a jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, revelou que dois gerentes da Caixa Asset haviam sido destituídos de suas funções após emitirem pareceres desfavoráveis ao investimento pretendido por Vorcaro.
O impacto da publicação paralisou o andamento das operações nos demais fundos, como explicou o banqueiro:
“Com as matérias difundidas na imprensa em julho de 2024 sobre a suposta perda de cargo de gestores da Caixa Asset que teriam sido contrários ao investimento em LFs do Banco Master, o grupo de Padilha e os dirigentes da Petros, Postalis e BB preferiram segurar a decisão de fazer o investimento.”
Apesar do recuo nos órgãos federais, as conversas continuaram ativas. O dono do Master afirma que conseguiu direcionar captações em regimes de previdência municipal onde o operador contava com influência política. Segundo Vorcaro, a regra da comissão de 10% continuou em vigor nessas praças, rendendo ao menos R$ 6 milhões ao grupo de Padilha e seus operadores.
As Tentativas de Agenda com Lula e o Rompimento Final
O estreitamento com o Planalto fez com que o grupo articulasse um encontro formal com o presidente da República. Em 23 de outubro de 2024, o banqueiro promoveu um segundo jantar para a cúpula em Brasília. Na véspera, Júlio enviou:
“Daniel, acertado!!!! Padilha e Olavo amanhã, às 22 horas, um jantar contigo em bsb (sic)… Vai 5 pessoas… Padilha, Olavo, o Fernando (primo), um assessor do Padilha e eu.”
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No dia seguinte, as mensagens sugeriam uma audiência iminente com Lula:
Júlio: “Daniel, liga pro Olavo… O PR vai te receber…”
Júlio: “Daniel, tô insistindo aqui porque já conversaram com PR e ele gostou da conversa! Olavo pediu pra retornar para ele para fazer agenda contigo.”
Júlio: “Daniel, não esquece do Olavo. Ele vai te passar informações. E fazer agenda. Porque semana que vem é sua reunião importante.”
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Apesar das trocas de mensagens, não há comprovação documental ou registro de que Lula tenha recebido Daniel Vorcaro. O único compromisso institucional registrado no Palácio do Planalto ocorreu em 4 de dezembro de 2024, articulado pelo advogado Walfrido Warde junto ao então chefe de gabinete da Presidência, Marco Aurélio Santana (o "Marcola"), em reunião fora da agenda pública para tratar da situação do banco perante o Banco Central.
As sucessivas negativas dos fundos federais em aplicar recursos no Master levaram o relacionamento ao esgotamento em meados de 2025. Em junho daquele ano, Vorcaro cobrou:
Daniel Vorcaro: “Estamos já há mais de 12 meses tentando uma boleta. Não dá pra mobilizar a equipe para novos temas sem concluir nenhum. Falhou de novo o negócio?”
O interlocutor alegou que as notícias sobre fraudes no banco afastavam os gestores. No início de agosto, após disponibilizar uma aeronave para que o emissário tentasse viabilizar os investimentos em outras capitais sem obter êxito, Vorcaro colocou um ponto final nas negociações:
Daniel Vorcaro: “Cara, essa é a última chance. Se não entrar nada até final da semana que vem, eu gostaria que você encerrasse o trabalho. Já consumiu muito tempo, dinheiro e recursos nossos.”
Júlio: “Concordo!”
Daniel Vorcaro: “Sexta que vem — não entrando — vida que segue. Lá na frente bolamos outra coisa juntos.”
Outro Lado e Situação da Delação
Procurado formalmente pela reportagem de VEJA, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que:
“Jamais solicitou ou recebeu qualquer vantagem financeira nem autorizou terceiros a receber recursos de Vorcaro em seu nome.”
O ex-secretário-executivo Olavo Noleto informou que não possui qualquer relação com o ex-banqueiro e que jamais recebeu valores dele. O ministro Alexandre Padilha também negou taxativamente manter qualquer vínculo com Vorcaro. Os demais citados no relato não responderam aos pedidos de esclarecimento até a publicação da matéria.
Vorcaro sustenta que reuniu um extenso acervo probatório — abrangendo históricos de conversas no WhatsApp, registros de acesso e entradas físicas no Planalto, trocas de e-mails, atas de reuniões em fundos de pensão, comprovantes bancários e planos de voos usados no esquema. O material teria sido rejeitado pela PGR juntamente com outro lote de revelações que envolvia pagamentos ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e a integrantes do Judiciário.
Após fracassar em duas propostas de colaboração por omissão deliberada de fatos aos investigadores da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, o banqueiro trabalha agora na estruturação de uma terceira proposta formal de delação premiada enquanto permanece custodiado em Brasília.