segunda-feira, abril 12, 2021
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Sociologia na pandemia

LUANA SOUTOS

Logo no início da pandemia de covid-19, um artigo publicado no El País Brasil defendeu uma ideia importante: além de saúde e economia, a pandemia revela que nós temos que debater Sociologia. Em outras palavras, a pandemia trouxe à tona questões de amplo interesse da Sociologia: saúde, trabalho, comunicação, educação, violência, entre outros temas.

 

A Sociologia se interessa por tudo o que diz respeito à forma como a sociedade está organizada. Se tem gente muito rica e gente muito pobre, interessa à sociologia saber por quê.

 

Se a economia é mais importante do que a saúde para os governos, interessa à sociologia saber por quê. Se há grupos políticos que insistem em distorcer ou negar fatos históricos, interessa à sociologia saber por quê. Deve ser por isso que a sociologia incomoda tanto: entender os fatos a fundo desmascara falsas suposições e afirmações.

 

Me lembrei imediatamente do artigo do El País Brasil quando um grande amigo, professor de Sociologia, pressionado a retomar as aulas online, me falou do seu trabalho virtual, que batizou de “Sociologia na Pandemia”.

 

Elaborou apostilas e atividades com todo o cuidado, e gastou bastante tempo pensando em formas de atrair a atenção dos alunos à distância, como atendê-los. Ao contrário das bobagens que diz o presidente da República, meu amigo está trabalhando duro para inventar uma nova forma de ensinar de verdade – não fingir.

 

É óbvio que ele não está empolgado com isso. Pelo contrário, ele sofre, porque a responsabilidade da “educação” que alcançará ou não esses estudantes recairá sobre os professores, e não sobre os governos que obrigaram a retomada das aulas em meio ao caos – afinal, as pessoas continuam morrendo, não é? Mas isso é assunto para outro artigo. Voltemos à importância da Sociologia.

 

A Sociologia tem uma vantagem sobre outras áreas de estudo: ela trabalha com a realidade, com as condições materiais e concretas do cotidiano. Sim, outras áreas de estudo fazem parte do cotidiano. Mas a Sociologia é o todo. Ela é própria da condição de estar vivo, de olhar para o lado, de observar.

 

Assim, uma das atividades que o meu amigo professor realizou com os estudantes foi a análise de músicas que retratam o dia-a-dia de grupos sociais, comparando com a experiência da pandemia. Como é possível imaginar, o resultado foi fantástico! Quando estimulados, os estudantes conseguem ter percepções sociais muito interessantes. E isso é incrível, porque a vida faz mais sentido quando nós entendemos as realidades.

 

Os jovens que, muito em breve, serão lançados no mercado de trabalho, terão muito mais maturidade para iniciar a vida adulta compreendendo quem são e onde estão.

 

No entanto, num país em que a economia que enriquece alguns e marginaliza outros é muito mais valorizada do que a própria vida, perceber as relações sociais não faz parte do plano. Isso é uma tragédia.

 

À Sociologia interessa saber também por que a própria Sociologia, ou disciplinas irmãs, como História e Filosofia, não são valorizadas nas escolas. Deve ser por que, logo de início, elas demonstram que as civilizações já viveram outras diversas realidades.

 

Ou seja, a situação atual não é definitiva. Traduzindo: há outras alternativas ao capitalismo. Elas também questionam “poderes” e “instituições” que foram inventadas ao longo do tempo, mas falsas suposições sustentam como verdades absolutas para garantir seus interesses e posições. Machismo, homofobia, racismo, desrespeito, discriminação, essas são as doenças sociais moldadas para sustentar divisões e hierarquias sociais. Elas questionam sugestões de alternativas, como o “empreendedorismo”, que nada mais é do que a capacidade de se virar para conseguir sobreviver sem emprego formal, já conhecida dos trabalhadores brasileiros.

 

A Sociologia é capaz de nos fazer repensar o modelo social no qual vivemos, e não há nada mais perigoso para o capitalismo do que isso. Temos de abrir o caminho para a Sociologia.

 

Luana Soutos é jornalista e socióloga.

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