quinta-feira, abril 15, 2021
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Aluna do campo tira 900 pontos na redação do Enem e fica entre as melhores do país

Sonho, dedicação e motivação foram os três fatores responsáveis pelo sucesso de Camilly Vitória Ferreira de Assis, de 18 anos, no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2020. A estudante da sala anexa da Escola Estadual de Campo José Rodrigues dos Santos, no assentamento Carumã, tirou 900 pontos na redação, ficando entre as melhores do país.

O sonho desta jovem, que concluiu o Ensino Médio em meio à pandemia, é fazer odontologia. A dedicação aos estudos, sem sombra de dúvida, é evidente diante do resultado alcançado. E a motivação veio da família e da professora Sirlei Rodrigues Lopes. Um conjunto de fatores que hoje representa mais esperança num futuro melhor.

Diante do tema “O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira”, Camilly foi da Constituição Federal ao contrato social do filósofo Jhon Lucke para criticar o atual cenário.

Argumentos precisos, coerência e técnica resultaram no excelente resultado. Mas a história por trás destes 900 pontos é ainda mais extraordinária.

Zona rural

Camilly cursou o Ensino Médio no campo, na zona rural do município de Rondonópolis (212 km ao sul de Cuiabá). A sala anexa, estrutura construído dentro de uma escola municipal para garantir educação aos filhos de trabalhadores, fica a cerca de 80 km da sede da escola, que está no Distrito de Boa Vista.

Filha de vaqueiro e mãe dona de casa, Camilly tem na família sua principal força para continuar os estudos. Os pais querem que ela conquiste o sonho de ser odontóloga. Mas todos sabem que, apesar da nota alcançada na redação e as médias boas nas provas, ainda há um grande obstáculo a ser vencido.

“Me dediquei muito. Por morar na zona rural, não tive a oportunidade de fazer um cursinho. Mas a professora Sirlei foi incrível, mesmo à distância por causa da pandemia. Minha motivação foi principalmente ela”, relata a estudante.

“No começo (pandemia) foi muito complicado. A pressão é muito forte em cima da gente. Mas eu tinha na minha cabeça que queria tirar uma boa pontuação. Meu sonho sempre foi fazer odontologia e sabia que para isso acontecer, primeiro tinha que ter uma boa nota para entrar numa faculdade”, completa.

A primeira etapa ela venceu, mas agora vem um fator que está fora de seu alcance, o pagamento da faculdade. “Já conversei, mas meus pais não têm condições. Além de pagar a faculdade, teria que me sustentar na cidade. Meu pai é vaqueiro e é o único que trabalha em casa. Já corri atrás de várias possibilidades. Mas vou continuar lutando. Hoje meu sonho é ganhar uma bolsa”.

A motivação

A professora Sirlei Rodrigues Lopes é só orgulho da aluna Camilly. Há mais de 20 anos em sala de aula, Sirlei é exemplo de dedicação.

Ela mesmo estudou na escola que hoje dá aula e lembra as dificuldades enfrentadas pela família para garantir seus estudos. “Sou do campo. Para me formar no Ensino Médio andava 12 km todos os dias. Meu pai se viu na situação da filha que queria estudar e se mudou para Rondonópolis. Eu conheço a realidade destes alunos, o quanto é difícil”.

Se antes o desafio era madrugar, pegar uma condução e chegar até ao assentamento Carumã duas vezes por semana, enfrentando longos quilômetros de estrada de terra, com a pandemia veio o impedimento do olho no olho. Mas a vontade superou.

Sirlei acompanha a turma da Camilly desde o 1º Ano do Ensino Médio. Quando as aulas presenciais tiveram que ser suspensas, ela foi atrás de mais conhecimentos. Em 2020, a professora iniciou um curso de redação e, ao mesmo tempo que aprendia mais, repassava os conhecimentos para seus alunos por meio do whatsapp.

Apesar de dominar tecnologia, afirma que escrever redação por aplicativo de celular foi, sem dúvida alguma, algo mais desafiador. “Trabalhei com eles principalmente em cima de técnica, pois o Enem exige técnica. Mesmo eu em Rondonópolis e eles no campo – tenho alunos em sala anexa que fica a 120 km da escola – eu mandava os trabalhos e eles devolviam”.

Nem todos os alunos possuem acesso à internet e aqueles que têm, ainda não é de qualidade. Outro problema é que em muitas fazendas da região os trabalhadores só podem acessar a internet à noite ou aos finais de semana.

“Meus alunos sempre souberam que podiam falar comigo a hora que eles tinham acesso. À noite, sábado, domingo, nunca tive horário. O que precisarem de mim, estou à disposição”.

E este comprometimento sempre resultou em relações de confiança. “Defendo meus alunos com unhas e dentes”, avisa a professora.

Quanto ao resultado alcançado por Camilly, a professora é pura emoção. Revela que já chorou muito de alegria, por ver uma aluna que enfrenta tantas dificuldades ter sucesso.

“Eu sempre afirmo que o dia que eu perder o brilho da primeira vez que entrei numa sala de aula, deixo de ser professora”, conclui.

Reconhecimento

Diretora da EE José Rodrigues dos Santos, Maria Silvana Silva conta que a unidade possui 520 alunos matriculados este ano. Além da sede, são seis salas anexas e a mais distante fica a 120 km.

Ela conta que como a unidade não aderiu à greve, ano passado iniciou as aulas em fevereiro. Em março, quando tudo parou por causa da pandemia, todos os professores se reuniram e, junto com a direção, foram unânimes em afirmar que não deixariam os alunos parados.

Primeiro criaram grupos de whatsapp, depois apostilas. “Professores e coordenação fizeram um excelente trabalho. Ninguém estava preparado para aquele momento, mas aqueles que pedalaram e correram atrás, conseguiram resultados”.

Maria Silvana afirma que se para as escolas da área urbana os desafios já foram grandes, na área rural foram muito maiores. “Mas os professores, como a Sirlei, arregaçaram as mangas e correram atrás. São profissionais compromissados, que acolhem os alunos, buscam, vão de porta em porta se necessário”.

Sobre a aluna Camilly, Maria Silvana também é só orgulho e a alegria ao saber do resultado também veio acompanhada de muitas lágrimas por saber que todo o esforço valeu a pena.

Inspiração

Superintendente de Políticas de Diversidade Educacional da Seduc, Lúcia Aparecida Santos afirma que histórias como a da Camilly “são pura inspiração e a certeza que a educação transforma vidas”.

“Quando uma aluna, com todas as dificuldades que possui, se sobressai, tenho certeza que podemos esperar dela só sucesso. O orgulho desta família é o nosso orgulho também. Afinal, é o resultado do nosso trabalho e mostra que estamos no caminho certo”.

Lúcia Santos também enfatizou o trabalho da professora Sirlei, afirmando que “educação não é só livro, é também experiência de vida”.

 

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