Estudo do Cemaden aponta aumento expressivo de eventos extremos em todo o país; altas temperaturas agravam seca, elevam risco de queimadas em 35% do território e ameaçam preços dos alimentos.
O Brasil deve registrar ao menos seis ondas de calor consecutivas entre os meses de agosto e dezembro, de acordo com análise técnica do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). O levantamento, baseado em uma série histórica de 47 anos em períodos de El Niño, adverte que o total de episódios pode ser ainda maior diante da possibilidade de consolidação de um evento classificado como Super El Niño.
Diferente de um dia pontual de calor, a onda de calor é caracterizada tecnicamente quando as temperaturas máximas e mínimas permanecem substancialmente acima da média climatológica por pelo menos três dias consecutivos, impedindo o alívio térmico noturno.
Série Histórica e Mudança de Padrão Climático
Os dados do Cemaden e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) apontam uma alteração profunda no comportamento térmico nas últimas décadas:
| Período do El Niño | Frequência Média de Ondas de Calor |
| 1982–1983 | 3 ondas |
| 1997–1998 | 4 ondas |
| 2009–2010 | 5 ondas |
| 2015–2016 | 7 ondas |
| 2023–2024 | 9 ondas (pico histórico) |
Nos anos 1980 e 1990, os episódios eram mais esporádicos e concentrados em áreas do Nordeste. A partir de 2010 — e com maior intensidade após 2020 —, os bloqueios atmosféricos passaram a cobrir extensões muito maiores, gerando anomalias térmicas simultâneas em todas as regiões do país.
“A gente percebe que a onda de calor passa a afetar todo o país, e isso é uma questão porque estamos falando de calor adicional em áreas já quentes e em locais sem resiliência para enfrentar temperaturas tão altas.”
— Mabel Calim Costa, doutora em Ciências do Sistema Terrestre e pesquisadora do Cemaden.
O mecanismo opera a partir de sistemas de alta pressão que agem como “tampas térmicas”, impedindo a formação de nuvens de chuva e aprisionando ar seco. Com a temperatura global basal mais elevada pelas mudanças climáticas, cada bloqueio atinge picos de temperatura ainda mais severos.
Projeções para Setembro e Riscos Regionais
Modelos meteorológicos para setembro indicam anomalias térmicas com termômetros marcando até 3°C acima da média histórica em grande parte do território nacional, sobretudo no Centro-Oeste, Norte e interior do Sudeste e Nordeste:
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Seca Severa: O Índice Integrado de Seca do Cemaden já classifica 157 cidades brasileiras em condição de seca severa, lideradas por municípios do Tocantins (50) e da Bahia (18).
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Risco de Incêndios Florestais: Mapeamento conjunto do Inpe, Inmet e Funceme coloca 560 municípios em alerta alto para queimadas, cobrindo uma área de mais de 3 milhões de km² (mais de 35% do território nacional). As faixas mais críticas abrangem áreas de transição entre a Amazônia e o Pantanal.
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Impacto Econômico e Inflação: O estresse térmico na agricultura e pecuária pode pressionar a inflação. Estimativas indicam que alimentos in natura (como hortaliças e carnes) podem sofrer altas de até 19,9% em um horizonte de até seis meses após choques climáticos provocados por um El Niño severo.
O governo federal mantém a mobilização do gabinete de crise com atuação de mais de 4,6 mil brigadistas federais para pronta resposta a focos de calor nas regiões vulneráveis.
O portal VTnews segue acompanhando as análises meteorológicas e os alertas das autoridades ambientais e de defesa civil em todo o país.




