Concentração Extrema de Votos em Estrelas do PSOL Fracassa nas Bancadas e Deixa Partido sem Fundo Partidário
Apesar do desempenho de nomes como Erika Hilton e Fábio Felix, sigla não cumpre meta da cláusula de barreira, perde rádio e TV e aciona o TSE por 185 votos no Espírito Santo; recusa a federação com PT cobra preço alto.
Estratégica para a sobrevivência e sustentação financeira das legendas no Congresso Nacional, a corrida pelas cadeiras da Câmara dos Deputados resultou em um duro revés para o PSOL. Embora tenha lançado alguns dos principais puxadores de votos do país nas eleições deste ano, a sigla de esquerda viu sua representação encolher na bancada federal e amargou o não cumprimento dos requisitos da cláusula de barreira, perdendo o acesso aos recursos do Fundo Partidário e ao tempo de rádio e televisão.
Nomes de grande apelo digital e midiático, como Erika Hilton (SP), Sâmia Bomfim (SP) e Jones Manoel (PE), registraram votações de destaque em seus respectivos estados. Contudo, a disparidade interna e o baixo rendimento do restante das chapas impediram que os companheiros de legenda alcançassem a votação individual mínima exigida pela legislação para assumir mandatos pelas sobras eleitorais.
Pela legislação eleitoral em vigor, a cláusula de barreira determina que os partidos elejam ao menos 13 deputados federais distribuídos por nove unidades da federação ou obtenham 2,5% do total nacional de votos válidos para a Câmara em nove estados, com mínimo de 1,5% em cada um deles. Sem o cumprimento desses índices, as agremiações sofrem o corte imediato das verbas de manutenção institucional e ficam excluídas da propaganda política gratuita.
A dificuldade contrasta com o desempenho do Partido Liberal (PL). Em Minas Gerais, por exemplo, o arranjo em torno da candidatura de Nikolas Ferreira permitiu que o partido garantisse 21 assentos em Brasília, elegendo até mesmo quadros de menor densidade eleitoral. O fenômeno deu-se porque a nominata do PL conseguiu manter um piso de votos distribuído de forma homogênea, diferentemente da polarização interna do PSOL.
Reeleita por São Paulo, a deputada federal Sâmia Bomfim defendeu a complexidade do pleito:
"É muito difícil calcular quantos votos um candidato terá quando não é eleição por máquina, território ou aparato."
— Sâmia Bomfim, deputada federal reeleita (PSOL-SP).
Ilusão do Quociente Eleitoral no Distrito Federal
Para o professor de ciência política da Universidade de Brasília (UnB), Frederico Bertholini, a composição das bancadas evidenciou uma capacidade de planejamento superior da centro-direita nas disputas proporcionais.
Um dos casos mais emblemáticos ocorreu no Distrito Federal, onde o deputado distrital Fábio Felix (PSOL) consagrou-se como o parlamentar mais votado para a Câmara dos Deputados, mas ficou solitário em sua nominata. Em material audiovisual de campanha, o próprio parlamentar chegou a questionar apoiadores nas ruas sobre o montante necessário para assegurar a eleição:
"Mais de 150 mil. Por isso eu não posso abrir mão de nenhum voto."
— Fábio Felix, deputado distrital e candidato à Câmara.
Para que a Federação PSOL/Rede elegesse representantes pelo quociente eleitoral no DF, o grupo precisava atingir 207.382 votos válidos (o total de sufrágios dividido pelas oito vagas da bancada). Felix atingiu isoladamente a quase totalidade do montante exigido pela legislação para a legenda, mas a ausência de capilaridade dos demais candidatos de sua chapa inviabilizou a entrada de qualquer colega de partido.
O Custo da Recusa à Federação com o PT
Uma das opções estratégicas para blindar a bancada do PSOL seria a formalização de uma federação partidária com legendas de centro-esquerda, como o Partido dos Trabalhadores (PT). A hipótese, contudo, foi rechaçada pela cúpula partidária em março com a justificativa de resguardar a autonomia ideológica da sigla.
No modelo de federação, os partidos operam em bloco rígido por quatro anos, somando tempo de TV, fundos e votações em todo o território nacional. Enquanto o PSOL dependeu de uma única estrela no DF, a Federação Brasil da Esperança (PT, PV e PCdoB) conquistou duas vagas federais na capital mesmo com menos votos totais, em razão de uma divisão mais equilibrada entre seus concorrentes.
A pedido da reportagem, simulações feitas pelo professor Bertholini demonstraram o impacto que a união com o petismo teria surtido:
Cenário DF: Uma federação ampla somaria 476.592 votos. O quociente partidário manteria a eleição de Fábio Felix (PSOL) e Agnelo Queiroz (PT), agregando ainda uma terceira cadeira por sobra de média com Reginaldo Veras (PV);
Cenário SP: A composição ampla conquistaria duas novas vagas. A projeção aponta que Paulo Teixeira (PT) e Reis (PT) assumiriam as vagas de Maria Rosas (Republicanos) e Carlos Bezerra Jr. (PSD). Por outro lado, o petista Rui Falcão herdaria a vaga que caberia a Sônia Guajajara (PSOL), redistribuindo forças no bloco.
Acima de tudo, a federação teria solucionado a principal vulnerabilidade do PSOL: alcançar com folga a distribuição em nove unidades federativas para cumprir a cláusula de barreira.
Batalha Judicial por 185 Votos no Espírito Santo
Diante do bloqueio dos repasses federais, a direção nacional do PSOL ingressou com medidas jurídicas perante o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A principal aposta concentra-se em obter uma retotalização de votos no estado do Espírito Santo, onde a legenda cumpriu os requisitos gerais, mas faltaram exatos 185 votos válidos para atingir o piso estadual e bater a meta na nona unidade da federação.
O partido alega a existência de irregularidades e candidaturas laranjas registradas por concorrentes capixabas que teriam alterado a base do cálculo eleitoral. Em nota oficial, a cúpula do partido contestou o resultado:
"Vamos lutar para provar na Justiça que algumas dezenas de votos não são justificáveis para retirar os direitos de funcionamento de dois dos principais partidos da política brasileira."
— Direção Nacional do PSOL.
Disparidade de Verbas e a Força dos Prefeitos
As assimetrias na alocação dos recursos do Fundo Eleitoral explicam boa parte do descompasso eleitoral enfrentado pelo campo progressista — quadro também vivenciado pelo PDT, que igualmente não conseguiu superar a cláusula de barreira.
Em Brasília, o diretório destinou quase R$ 2,3 milhões para a campanha de Fábio Felix (mais de 90% oriundos das instâncias partidárias), enquanto a segunda candidata mais votada da lista, Enfermeira Karine, recebeu apenas R$ 340 mil e somou 4,3 mil votos. Em São Paulo, o desempenho massivo de Erika Hilton (mais de 1,5 milhão de votos) e de Sâmia Bomfim (mais de 500 mil) gerou legenda suficiente para nove assentos, mas a agremiação conseguiu preencher apenas seis, pois os candidatos da rabeira não atingiram o piso individual de votação mínima exigido pelas sobras.
O diretor de marketing Fabio Eloi analisa que a aposta cega em puxadores gerou um efeito reverso:
"Os partidos concentraram os investimentos nesses supostos puxadores de votos, acreditando que os candidatos menos relevantes atingiriam quantidade de votos suficientes para superar o quociente, e isso não se concretizou. Quando a gente olha para os candidatos puxadores de voto, essas pessoas são muito presentes nas redes sociais, com público muito bem estabelecido e que dominam a linguagem. Não basta você ter presença nas redes sociais, é preciso estar lá na linguagem que o consumidor dessas plataformas compreende."
— Fabio Eloi, especialista em marketing eleitoral.
Sâmia Bomfim reconhece que a renovação de quadros do PSOL ainda precisa maturar territorialmente:
"Novas lideranças que atuam no partido têm se destacado, inclusive mais que figuras históricas de partidos mais tradicionais. Outras surgirão e ganharão força aos poucos."
Além da lacuna de linguagem nas plataformas digitais, especialistas apontam que o PL construiu uma rede física de distribuição de votos consolidada em 2024, elegendo prefeitos e vereadores em 16 das maiores cidades brasileiras que serviram de esteio operacional direto aos postulantes à Câmara dos Deputados em 2026.
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