Por Que os Protestos Estão se Espalhando Pela Europa: Custo de Vida, Moradia e Serviços Precários Incendeiam Cidades e Fortalecem Radicais
Manifestações iniciadas por jovens e estudantes na França ganham adesão em Portugal, Espanha, Itália e Albânia; conflagração urbana derruba prefeituras, antecipa eleições e coloca em xeque a ajuda financeira e militar à Ucrânia.
A escalada descontrolada nas tarifas de energia elétrica e combustíveis, a degradação crônica das instalações escolares, o desmonte dos serviços de saúde e a disparada nos preços dos aluguéis e imóveis transformaram as ruas de diversas capitais europeias em praças de confronto. A indignação generalizada da população perante o arrocho salarial e a perda do poder aquisitivo consolidou-se como a principal força motriz de transformação política recente no bloco europeu, impulsionando partidos de matriz populista e radical.
De acordo com o cientista político Gilles Ivaldi, pesquisador da universidade francesa Sciences Po, a deterioração material das famílias tomou a dianteira dos processos eleitorais:
"As preocupações com o poder de compra tornaram-se um dos principais motores da política populista na Europa."
— Gilles Ivaldi, cientista político da Sciences Po.
Na França, o estrangulamento orçamentário decorrente do baixo crescimento econômico, taxas inflacionárias persistentes e endividamento estatal recorde forçou a gestão governamental a adotar um pacote severo de cortes de gastos públicos. A medida pressionou ainda mais os lares de baixa renda, que foram às ruas exigir aportes emergenciais nas redes escolares e nos serviços essenciais.
O ápice dessa revolta ocorreu no último sábado (17), quando cerca de 500 mil manifestantes marcharam pelo território francês, coroando um ciclo de quatro semanas de greves estudantis. Os protestos, antes pacíficos, descambaram para depredações sistemáticas, assaltos ao comércio, veículos incendiados e ataques a edifícios históricos.
A dinâmica francesa passou a atuar como um estopim para o continente, conforme observa Sebastien Maillard, analista sênior do think tank britânico Chatham House:
"A França serve como modelo de protesto para outros movimentos no norte da Itália, em Bruxelas e em Portugal. Os problemas que alimentam a indignação popular na França também são sentidos em outros lugares e as manifestações podem se espalhar por outras partes do continente."
— Sebastien Maillard, analista da Chatham House.
Eleições Decisivas e o Fortalecimento da Extrema Direita
O recrudescimento da violência urbana ocorre em um momento de extrema sensibilidade eleitoral para as principais economias da União Europeia (UE):
França: As eleições presidenciais marcadas para abril e maio de 2027 determinarão a sucessão após uma década de governo centrista sob Emmanuel Macron. A líder da ultradireita Marine Le Pen (Rassemblement National) lidera as pesquisas de intenção de voto. O Palácio do Eliseu acusa a esquerda radical da França Insubmissa (LFI), liderada por Jean-Luc Mélenchon, de instrumentalizar a revolta nas ruas para ampliar seu capital eleitoral;
Itália: A primeira-ministra de direita Giorgia Meloni se prepara para as eleições nacionais de 2027 sob o receio da concorrência de uma força ainda mais extremista: o novo partido Futuro Nacional (FnV), fundado pelo ex-general do Exército Roberto Vannacci;
Alemanha: A Alternativa para a Alemanha (AfD) segue acumulando vitórias regionais robustas, surfando na insatisfação provocada pelos custos proibitivos de energia para o parque fabril alemão.
A crise social coincide com um ponto de inflexão no apoio europeu à Ucrânia frente à guerra contra a Rússia. Movimentos radicais à direita e à esquerda têm questionado o envio bilionário de recursos a Kiev e defendem a reabertura imediata do fornecimento de gás e petróleo russos como única saída pragmática para baratear as contas domésticas.
Para o economista Jan Steckel, docente da Universidade Técnica de Munique:
"Partidos populistas frequentemente apresentam os custos de energia como algo evitável e os atribuem às decisões políticas de governos, em vez de aos choques geopolíticos subjacentes que os provocam. Esses choques geopolíticos são muito mais difíceis de explicar. E acredito que é por isso que os partidos que estão no poder frequentemente enfrentam dificuldades."
— Jan Steckel, professor da Universidade Técnica de Munique.
Na Polônia, forte bastião pró-Ucrânia, a alta da inflação energética elevou a popularidade da legenda de ultradireita Confederação da Coroa Polonesa. Ao lado de parlamentares da alemã AfD na cidade portuária de Lubmin — ponto de chegada dos gasodutos Nord Stream —, o líder polonês Grzegorz Braun sintetizou a bandeira:
"Eu adoro o cheiro do gás russo pela manhã."
— Grzegorz Braun, líder da Confederação da Coroa Polonesa.
Frustração da Juventude e Crise na Educação
A espinha dorsal das mobilizações é sustentada por jovens e estudantes desiludidos com a precarização do mercado de trabalho e o colapso dos sistemas de ensino. Para a socióloga María Silvestre, da Universidade de Deusto, na Espanha, a juventude europeia foi tomada por "um forte sentimento de incerteza e perda de controle".
O depoimento do jovem Quentin Leviloux, de 21 anos, colhido durante protesto em Nantes, na França, reflete a angústia generalizada:
"Por que estou aqui? Bem, muito simplesmente porque considero o atual custo de vida realmente assustador. Basta pensar nas pessoas que ganham apenas um salário mínimo quando se vê o custo dos alimentos, dos combustíveis e de tudo o mais. É assustador ver como tudo se tornou incrivelmente caro."
— Quentin Leviloux, manifestante francês.
Na França, o estopim se deu nos colégios de periferia do norte de Paris, que sofrem com falta de professores e tetos desabando. Com a união da central sindical CGT, a mobilização culminou em mais de 2.500 prisões no último fim de semana, além de pilhagens em Paris, Marselha, Bordeaux e Lyon. Em Limoges, a sede centenária da prefeitura desabou parcialmente após ser destruída pelo fogo.
Em resposta à violência, o presidente Emmanuel Macron subiu o tom:
"Aqueles que saquearam terão de pagar pelos danos, e aqueles que procuraram derrubar a República serão responsabilizados."
— Emmanuel Macron, presidente da França.
O primeiro-ministro Sébastien Lecornu impôs toque de recolher compulsório em perímetros urbanos conflagrados.
Em paralelo, professores na Espanha deflagraram greve por tempo indeterminado em Madri contra o arrocho salarial, enquanto estudantes na Bélgica foram reprimidos pela polícia com blindados e jatos d'água ao protestarem em Bruxelas e Liège contra o encarecimento de matrículas universitárias.

A Bolha Imobiliária na Península Ibérica e a Queda de Governo
Na Espanha e em Portugal, o motor da revolta reside na crise de moradia e na escalada dos aluguéis, turbinadas pela especulação e pelo turismo em massa:
Portugal: Dezenas de milhares de manifestantes marcharam em Lisboa. A polícia portuguesa interveio nesta terça-feira e desmantelou à força um acampamento com dezenas de barracas que ocupava a Praça do Rossio, efetuando a prisão de 55 pessoas;
Espanha: Acampamentos montados na histórica praça Porta do Sol, em Madri, denunciam o encarecimento habitacional após a comoção gerada pelo despejo da idosa María del Carmen Abascal, de 87 anos, que faleceu no hospital logo após ser retirada de sua casa. Pressionado, o primeiro-ministro Pedro Sánchez viu seu projeto de habitação ser barrado no Parlamento e convocou eleições gerais antecipadas para novembro, mês em que o país enfrentará sua primeira greve geral em 14 anos.
Itália: Militares nas Ruas, Desabastecimento e Parada na Produção de Massas
Na Itália, o movimento civil Italia in Piazza deflagrou uma "mobilização permanente" aos sábados, protestando contra a inflação interna de 4,2% (acima da média de 3,8% da zona do euro). O último fim de semana em Milão, capital financeira italiana, foi marcado por confrontos violentos e saques promovidos por centenas de menores encapuzados no centro da cidade, resultando em 271 detidos e 32 prisões em flagrante.
Em reação, o vice-primeiro-ministro Matteo Salvini (da legenda de ultradireita Liga) determinou a mobilização de 500 militares das Forças Armadas para patrulhar as ruas de Milão sob a justificativa de restabelecer a segurança e a ordem pública.
Além disso, piquetes e bloqueios logísticos liderados por caminhoneiros e agricultores na Sicília e no sul da Itália geraram escassez de combustível, filas em postos e prateleiras vazias em redes varejistas. A paralisação interrompeu a cadeia produtiva dos principais fabricantes de massas da nação, como a fábrica Rummo, na região da Campânia, cujo diretor-executivo, Cosimo Rummo, alertou sobre a falta total de matéria-prima para a indústria de alimentos.
Tribunal Incendiado na Albânia
No leste europeu, protestos violentos tomaram a capital da Albânia, Tirana. Manifestantes estudantis que aderiram ao movimento popular "Flamingo" entraram em choque com tropas policiais e atearam fogo ao prédio do Tribunal de Apelação nesta segunda-feira.
O movimento exige a renúncia do primeiro-ministro Edi Rama, acusando sua administração de corrupção crônica após o governo autorizar empreendimentos turísticos de alto luxo vinculados a Jared Kushner, genro do presidente norte-americano Donald Trump, em uma área de proteção ambiental de flamingos. Rama repudiou os atos, sustentando que os jovens foram "ideologizados e radicalizados" por facções de extrema esquerda.
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