De Principal Parceiro a um Futuro Incerto
Nas últimas duas décadas, a China se consolidou como o principal destino das exportações brasileiras, impulsionando recordes sucessivos no agronegócio nacional. Apenas em 2025, o mercado chinês rendeu ao Brasil impressionantes US$ 100 bilhões. O ritmo seguiu forte no primeiro semestre de 2026, com vendas atingindo US$ 58,322 bilhões — um salto de 21,9% em relação ao ano anterior.
No entanto, por trás das cifras bilionárias e do redirecionamento provocado pela recente guerra comercial com os Estados Unidos, um movimento silencioso de Pequim começa a preocupar o setor produtivo nacional. A China quer deixar de depender do agro brasileiro e global.
O 15º Plano Quinquenal e a Busca por Soberania
A mudança estrutural está formalizada no recém-lançado 15º Plano Quinquenal Nacional (2026-2030) chinês. O documento elevou a segurança alimentar ao status de prioridade estratégica máxima de segurança nacional. As diretrizes incluem:
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Ampliação drástica da produção doméstica de grãos.
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Aumento da autossuficiência em sementes agrícolas (meta de 85% para sementes estratégicas).
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Aceleração do uso de Inteligência Artificial e agricultura de precisão.
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Desenvolvimento de novas fontes de proteína (fermentação de precisão, biomanufatura e carne cultivada em laboratório).
“A China identificou que estar muito exposta a importações é um elemento de vulnerabilidade para um país com uma população tão grande e por isso está promovendo uma mudança estrutural”, explica Larissa Wachholz, ex-assessora especial do Ministério da Agricultura e coordenadora do Cebri.
Projeções da consultoria Systemiq, em seu relatório China’s Food Future, estimam que as importações chinesas de soja podem cair cerca de 25% até 2030, o que representa uma redução de 23,5 milhões de toneladas. Hoje, o Brasil responde por 71% de toda a soja comprada pelos chineses, insumo que é a base da ração animal no país asiático.
O Fator Geopolítico e as Tensões com os EUA
A urgência chinesa ocorre em meio a um cenário global turbulento. O Brasil tem absorvido a demanda que antes ia para os Estados Unidos. As exportações brasileiras para o mercado americano recuaram 13% no primeiro semestre de 2026 após Donald Trump impor tarifas de 50% em 2025. Nesta quarta-feira (22), uma nova tarifa adicional de 25% entrou em vigor, forçando o Brasil a buscar alternativas.
Essas barreiras de Trump podem fazer os EUA perderem para o Brasil o posto histórico de maior exportador agrícola do mundo. Contudo, o professor da USP Ricardo Abramovay alerta para o risco geopolítico: uma eventual trégua entre Washington e Pequim poderia forçar a China a comprar mais produtos americanos, espremendo o Brasil.
O historiador econômico Adam Tooze, da Universidade Columbia, traça um paralelo sombrio. Ele alerta que a China está aplicando na agricultura a mesma política industrial agressiva que a tornou líder global em painéis solares e veículos elétricos. “Se o desacoplamento alimentar for perseguido com a mesma energia, ele irá subverter a economia agrícola global” destaca Tooze.
Sinal Amarelo Ligado: Como o Brasil Pode Reagir?
A senadora e ex-ministra da Agricultura, Tereza Cristina (PP-MS), tem alertado o setor produtivo sobre a necessidade de adaptação imediata. Ela teme, sobretudo, a flexibilização chinesa para o cultivo doméstico de sementes transgênicas, tecnologia que Pequim agora domina.
“A hora que eles passarem para os transgênicos e aumentarem essa produção própria para diminuir a dependência, o Brasil será o primeiro país impactado. O Brasil tem que pensar no que fazer estrategicamente, se terá que diminuir a produção de soja ou passar para outros produtos”, adverte a senadora.
Especialistas apontam que a saída para o Brasil não é o pânico, mas a adaptação estratégica:
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Agregação de Valor: Transformar o grão em proteína internamente, ampliando ainda mais a liderança brasileira na exportação de carnes processadas e in natura.
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Transição Energética: Direcionar a produção excedente de soja e milho para a fabricação de Combustíveis Sustentáveis de Aviação (SAF) e combustíveis navais.
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Presença de Mercado: O setor privado brasileiro precisa atuar diretamente em território chinês, monitorando tendências de consumo, que estão cada vez mais voltadas para produtos “verdes”, saudáveis e sustentáveis.
Apesar dos riscos, o presidente da Apex-Brasil, Laudemir Müller, mantém o otimismo, destacando que em um mundo instável, o Brasil se consolida como um “fornecedor estável e amigável”. Ninguém prevê o fim da parceria comercial sino-brasileira, mas a era do crescimento infinito e garantido das exportações de grãos para a Ásia parece estar com os dias contados.




