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Boicote ao próprio bolso

A crescente ideia de boicote econômico no período pós eleições, tem movimentado o cenário nacional em todas esferas de poder. Mas até onde isso vale a pena?

VT

Por alexssander de camargo

05/11/2026 às 11:02

Boicote ao próprio bolso
Foto: VT News

Boicote ao próprio Bolso

 

Com o fim das eleições, existe um movimento grande incentivando o boicote a funcionários e clientes que aderiram ao voto diferente do proprietário do estabelecimento comercial. Boicote este incentivado por personalidades políticas. O primeiro pensamento que me vem à cabeça é: que país quebrado é esse que pode se dar ao luxo de escolher cliente?

Pois bem, primeiramente é importante destacar que essa prática, historicamente registrada, tem muita semelhança com o Judenboykott, que o regime nazista executou contra a população judaica e marcou o início oficial da exclusão econômica e social dos judeus na Alemanha em 1933. Porém, o objetivo não é tratar de conceitos históricos que se assemelham, e sim de como as pessoas são induzidas ao erro pela polarização. É preciso ter a compreensão macro de que o funcionário de um estabelecimento é um consumidor do mercado local. Ou seja, o funcionário do açougue, ao receber seu salário, consome indo à mercearia, ao barbeiro, à padaria e à farmácia. Assim como os funcionários desses outros estabelecimentos também consomem no açougue. Com isso, conseguimos enxergar como o dinheiro gira na sociedade e como o comércio local vive uma espécie de simbiose. O que aconteceria se todos os estabelecimentos demitissem seus funcionários? A reação imediata é que o dinheiro pararia de circular no próprio comércio, penalizando diretamente a renda local.

Esse mesmo raciocínio cabe no assistencialismo. Não entrarei no mérito do benefício social; farei uma análise puramente econômica. Tomarei como exemplo o Bolsa Família, que é o mais famoso. Existem muitos comércios que não conseguem enxergar que grande parte desse assistencialismo se converte em renda para seu próprio estabelecimento. Convenhamos que uma pessoa que recebe assistencialismo financeiro não está gastando esse dinheiro para investir em paraísos fiscais fora do país. Este dinheiro serve, primeiramente, para o básico da sobrevivência, que é comida, saúde e a estrutura para garanti-las.

Agora, fazendo uma terceira abordagem: a Recomposição Geral Anual do serviço público, ou melhor dizendo, a RGA. Estudos apontam que o salário do servidor público vai quase que integralmente para o comércio local. No último levantamento da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares), realizada pelo IBGE, expõe que o salário do servidor é destinado da seguinte forma: 34,9% para habitação, 20,4% para transporte, 16,6% para alimentação, 7,3% para saúde, 2,9% para recreação, 4,7% para educação, 3,6% para higiene, 3,5% para vestuário e 2,3% para serviços pessoais, 3,8% despesas diversas.

Durante as eleições, o próprio governador de Mato Grosso, Otaviano Pivetta, mencionou que pagar a RGA atrasada representaria quatro bilhões de reais. Fazendo o cruzamento desses dois dados, conseguimos encontrar quanto cada setor deixou de receber nesses últimos quatro anos. Considerando a RGA de 19,52% que deixou de ser implementada no salário dos funcionários públicos de Mato Grosso, conseguimos chegar à estimativa de quase 150 milhões de reais que deixam de ir para o comércio local mensalmente. É válido lembrar que as elites salariais do serviço público já estão recebendo o teto constitucional, por isso a RGA não os afeta podemos dar exemplo de procuradores, juízes e fiscais de tributos. Então quando conversamos sobre isso, estamos falando de professores, enfermeiros e policiais.

Por fim, é preciso entender que o micro, pequeno e médio empresário, assim como os seus funcionários e os servidores públicos, fazem parte do mesmo núcleo econômico e classe social: a do trabalhador. Boicotar qualquer um do grupo é boicotar o próprio grupo, em outras palavras, se um componente do grupo for afetado por um boicote, todo o grupo sofre as consequências.

 Perceba também que os grandes e megaempresários não são grandes consumidores do mercado local; pois sua demanda financeira, quando não acumulada no mercado especulativo, é consumido em viagens internacionais, produtos importados de alta qualidade, e é bom lembrar que grande parte de seus clientes são do mercado estrangeiro. Ou seja, pouco importa para eles a real situação do comércio local. Por isso, é importante pensar, de fato, em quem se beneficia com ideias como essa que, no final das contas, é um boicote ao próprio bolso.

 

Alexssander de Camargo

Contador
Membro da Academia Mato-Grossense de Ciências Contábeis (AMACIC)

Especialista em gestão pública e gestão tributária

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