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Falta de Perspectiva e Custo de Vida Mobilizam Onda Histórica de Protestos Juvenis Pela Europa

Movimento transnacional convocado via TikTok e Instagram reúne centenas de milhares em dezenas de cidades; crise imobiliária, precarização e violência desafiam governos às vésperas de eleições decisivas.

VT

Por Da Redação

01/11/2026 às 17:48

Falta de Perspectiva e Custo de Vida Mobilizam Onda Histórica de Protestos Juvenis Pela Europa
Foto: Em Atenas, alunos e professores protestaram por melhorias na educação e contra o alto custo de vida — Foto: REUTERS/Abdul Saboor

De Milão a Marselha, passando por Madri, Lisboa, Bruxelas e Atenas, as principais capitais e cidades europeias enfrentam uma escalada de manifestações massivas marcadas pelo protagonismo quase absoluto da juventude. Somente neste sábado (31/10), mais de 300 mil pessoas marcharam em diferentes regiões da França, resultando na prisão de ao menos 290 manifestantes, de acordo com o balanço divulgado pelo Ministério do Interior do país. Paralelamente, cidades alemãs como Berlim, Frankfurt, Colônia e Hamburgo registraram saques e confrontos abertos que forçaram as forças de segurança a empregar canhões de água e blindados de choque para dispersar multidões.

Embora a maioria das mobilizações deste mês tenha começado de forma pacífica, convocada em torno de pautas sociais legítimas, muitos atos descambaram para cenas de violência, vandalismo e confrontos com as polícias locais. O perfil dos detidos expõe uma marca que chama a atenção das autoridades: a presença massiva de adolescentes e menores de idade. Em Barcelona, mais da metade dos detidos nos distúrbios do último fim de semana tinha menos de 18 anos. Em Milão, capital financeira da Itália, menores também figuraram entre os alvos de contenção policial após depredações no centro da cidade.

A 'TikTokização' e a Internacionalização da Revolta

As manifestações de estudantes e trabalhadores jovens estendem-se por mais de 1.600 quilômetros do território europeu, alcançando França, Bélgica, Irlanda, Espanha, Portugal, Itália, Grécia, Sérvia e Albânia — onde manifestantes exigem a renúncia do premiê Edi Rama, no poder há 13 anos. Ao contrário das greves sindicais tradicionais, os atos são articulados de forma improvisada e viral por meio de redes sociais como o TikTok e o Instagram, fenômeno que levou o ministro do Interior da Bélgica a criticar a chamada "tiktokização" dos protestos.

A atual faísca teve origem na França no final de setembro, impulsionada pela revolta contra a escassez de professores e a infraestrutura precária das escolas públicas, servindo de inspiração imediata para outros países:

  • Espanha: Alunos secundaristas tomaram as ruas de Barcelona sob a hashtag #InstitutsIndignats, espelhada diretamente no lema francês Lycées Indignés (Secundaristas Indignados);

  • Grécia: Em Atenas, estudantes secundaristas como Yiannis Papanikolaou, de 17 anos, marcharam contra o abandono predial das escolas, afirmando que "a França vai impulsionar a Grécia" para forçar mudanças estruturais;

  • Conexões globais: O movimento bebe de fontes externas, como o Partido do Povo Barata (CJP), grupo de contestação da Geração Z surgido em maio na Índia que questiona o sistema formal de ensino e a falta de oportunidades.

Estagnação Econômica, Crise Habitacional e Esgotamento Social

Para além das reivindicações educacionais, o motor profundo da indignação reside na estagnação econômica crônica e no sufocamento pelo custo de vida. Os jovens europeus relatam a sensação de que não conseguirão atingir os marcos de vida das gerações anteriores: receiam que a inteligência artificial feche postos de trabalho qualificados, enfrentam a ecoansiedade pelas mudanças climáticas e veem a inflação corroer sua capacidade de subsistência.

Nas capitais ibéricas, a revolta concentra-se na especulação imobiliária. Em Madri, um acampamento permanente de barracas ocupa uma praça central desde o fim de setembro. Em Lisboa, dezenas de milhares de jovens protestaram contra os aluguéis proibitivos. O drama foi sintetizado por Carolina Cruz, bióloga de 26 anos e pesquisadora de doutorado: "Sou a primeira pessoa da minha família a ingressar em um programa de doutorado e, mesmo com tudo o que estudei, ainda não consigo me sustentar", desabafou, diante do risco de despejo iminente. Em Milão, o estudante Riccardo, de 22 anos, resumiu o objetivo pragmático das ruas: "Mesmo que não consigamos mergulhar o país no caos, como na França, o objetivo é pelo menos fazer com que as pessoas voltem a discutir esses problemas".

Contudo, a insatisfação juvenil não é homogênea nem restrita à esquerda. No comício de lançamento da campanha presidencial de Marine Le Pen, jovens da direita nacionalista autodenominaram-se a "maioria silenciosa", apontando que suas maiores angústias envolvem a imigração descontrolada, a segurança pública e o encarecimento dos alimentos.

Centenas de milhares de pessoas participaram de protestos na França, alguns dos quais se tornaram violentos — Foto: REUTERS/Abdul Saboor

Sucessão de Crises e Ruptura do Contrato Social

Para especialistas em relações internacionais, a convulsão continental não é um raio em céu azul, mas o transbordamento de uma série de traumas acumulados. Segundo Mark Leonard, diretor do Conselho Europeu de Relações Exteriores, a Europa vivencia um acúmulo de crises sobrepostas que nunca foram cicatrizadas: a derrocada financeira de 2008, o fluxo migratório de 2015, a emergência climática, o confinamento pandêmico da covid-19, a disparada inflacionária gerada pela guerra na Ucrânia e as novas tensões armadas no Golfo:

"Uma crise se sobrepõe à outra. Essas crises deram origem a diferentes 'tribos'. O consumo de conteúdo nas redes sociais e os algoritmos reforçam as diferentes visões desses grupos, aumentando a sensação de polarização na Europa. É a sensação de que 'a minha crise é mais importante do que a sua'."

— Mark Leonard, diretor do Conselho Europeu de Relações Exteriores.

Nathalie Tocci, professora de ciência política da Universidade Johns Hopkins e ex-assessora governamental na Itália, pondera que o engajamento juvenil nunca desapareceu, tendo apenas migrado da política partidária tradicional para a ação direta de base, a exemplo do movimento climático Fridays for Future e dos protestos na Sérvia que abalaram o regime de Aleksandar Vučić. Para Tocci, a grande incógnita reside na capacidade de fôlego dessas mobilizações descentralizadas.

Violência, 'Casseurs' e o Endurecimento dos Governos

O debate sobre a segurança pública divide os países entre a repressão penal e as causas sociais dos distúrbios. Relatórios de inteligência da França e da Bélgica indicam que os saques são oportunistas, alimentados por uma mistura de "violência gratuita" praticada por jovens marginalizados e vandalismo planejado por núcleos da esquerda radical anticapitalista.

Na França, os arruaceiros são rotulados como casseurs ou pejorativamente chamados de racaille (ralé) — termo historicamente associado às periferias desfavorecidas (banlieues). Na Itália, utiliza-se a gíria depreciativa maranza para descrever jovens de origem operária ou imigrante envolvidos em confrontos. Enquanto o presidente Emmanuel Macron e o centro político atribuem a desordem a criminosos comuns e militantes radicais, a extrema direita de Le Pen na França e o partido separatista flamengo Vlaams Belang na Bélgica exploram os tumultos para vincular a violência à imigração e à política de fronteiras abertas.

Em reação, governos prometem linha dura. Itália e França adotaram o princípio de "quem quebra, paga". A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, baixou medidas para punir financeiramente os pais de menores infratores, incluindo o desconto direto de indenizações em benefícios sociais pagos pelo Estado.

Protestos contra o governo tomaram as ruas de Tirana, capital da Albânia — Foto: REUTERS/Valdrin Xhemaj

Efeito Eleitoral e o Contrato Social Rompido

A conflagração das ruas ocorre em um momento decisivo para o futuro político da União Europeia, com eleições legislativas e presidenciais agendadas nos principais países do bloco. A percepção generalizada de descontrole tem servido de combustível eleitoral para a direita conservadora: Marine Le Pen lidera as pesquisas de intenção de voto na França com sua retórica de autoridade e ordem, padrão que também impulsiona legendas nacionalistas na Alemanha, Espanha e Polônia.

Segundo analistas da Chatham House, o fenômeno expõe o esgotamento dos partidos moderados e a quebra do clássico "contrato social" europeu — no qual o cidadão paga tributos elevados sob a garantia de receber segurança, infraestrutura de ponta, aposentadoria digna e estabilidade. Sem perspectivas materiais claras para a juventude, analistas preveem que a onda de protestos continuará ditando o ritmo da política continental nos próximos meses.

Segundo os serviços de segurança da Bélgica, há quem aproveite manifestações autorizadas para cometer atos de violência — Foto: REUTERS/Yves Herman

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