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Presidente do Paraguai renuncia após quebra de banco digital, mas Câmara decide seguir com impeachment

Santiago Peña tentou deixar o cargo em meio a colapso de instituição da qual foi acionista, mas deputados rejeitaram a renúncia para impedir foro vitalício; vice Pedro Alliana deve assumir o poder.

VT

Por Da Redação

06/11/2026 às 14:28

Presidente do Paraguai renuncia após quebra de banco digital, mas Câmara decide seguir com impeachment
Foto: Santiago Penã anuncia renúncia — Foto: Reprodução/X

O presidente do Paraguai, Santiago Peña, apresentou formalmente sua carta de renúncia ao cargo nesta quinta-feira (5), após o aprofundamento de uma grave crise bancária e política deflagrada pela quebra e liquidação forçada do ueno, banco digital que contava com cerca de 3 milhões de clientes e do qual o governante já havia sido acionista. A manobra política para deixar a chefia do Poder Executivo, contudo, foi barrada pela Câmara dos Deputados paraguaia, que rejeitou a renúncia por decisão unânime e deliberou pela continuidade sumária do processo de impeachment contra o mandatário.

Ao mesmo tempo em que manteve o julgamento político contra Peña, o plenário rejeitou a abertura de processo de impedimento contra o vice-presidente Pedro Alliana. Com o desfecho legislativo, Alliana recebeu sinal verde institucional para ser empossado como o novo presidente da República do Paraguai e cumprir o restante do mandato constitucional, previsto para durar até 2028.

A tentativa de renúncia de Peña foi interpretada por analistas e pela oposição como uma cartada jurídica para preservar prerrogativas de foro especial e escapar do crivo da Justiça comum. Conforme o texto da Constituição paraguaia, os ex-presidentes adquirem automaticamente o status de senadores vitalícios. No entanto, o artigo que assegura esse privilégio parlamentar estabelece que o ex-mandatário perde o direito caso tenha sido formalmente condenado em processo de julgamento político (impeachment) no Parlamento. Ao recusar o pedido de renúncia — prerrogativa expressa do Congresso Nacional —, os parlamentares mantiveram a possibilidade de cassação e de posterior responsabilização penal comum do líder político.

Santiago Peña, economista e ex-ministro da Fazenda durante o governo de Cartes, é o atual candidato presidencial do Colorado — Foto: REUTERS

Em pronunciamento em vídeo divulgado à população, Peña justificou a entrega do cargo sob a alegação de manter a governabilidade e pediu desculpas aos cidadãos que tiveram seus recursos financeiros bloqueados pelo colapso da instituição:

"Decidi renunciar pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas. Estou convencido de que nenhum cargo pode estar acima do bem-estar do Paraguai. Também quero pedir desculpas ao povo. Se em algum momento falhei, nunca foi minha intenção decepcionar a confiança que depositaram em mim."

— Santiago Peña, em mensagem sobre a renúncia.

O isolamento de Peña tornou-se irreversível na manhã de quinta-feira, quando o ex-presidente Horacio Cartes, atual comandante do Partido Colorado e principal fiador político de sua ascensão eleitoral, retirou o apoio partidário ao governo. O rompimento foi acompanhado pelo presidente do Congresso, Basilio Núñez, unificando tanto as bancadas de situação ligadas ao coloradismo quanto as forças de oposição favoravelmente à destituição do economista conservador que assumiu a presidência em 2023.

Vínculo com o banco ueno e o rombo nas contas públicas

A acusação que embasa o impeachment de Peña foi protocolada por 35 deputados e o responsabiliza por conflito de interesses, favorecimento institucional, manipulação regulatória e desvio de verbas previdenciárias. A oposição sustenta que o Banco Central do Paraguai (BCP) foi aparelhado e acobertou irregularidades continuadas no banco virtual.

Clientes do banco ueno fazem protesto em Assunção, no Paraguai, em 5 de novembro de 2026. — Foto: Daniel Duarte/ AFP

O ueno, controlado pelo Grupo Vázquez, teve a liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central na terça-feira (3), após fiscais identificarem insuficiência de capital e patrimônio para honrar os compromissos com correntistas, problema gerado por empréstimos vultosos concedidos a companhias ligadas aos próprios donos da instituição. Peña detinha participação societária no conglomerado proprietário até março do ano passado. Além do impacto financeiro sobre 3 milhões de poupadores, o banco concentrava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos de órgãos governamentais, incluindo fundos de pensão do Instituto de Previdência Social (IPS).

Deputado da oposição no Paraguai segura cartaz em ato que pede impeachment do presidente Santiago Peña após fechamento de banco virtual que gerou crise bancária no país, em 5 de novembro de 2026. — Foto: Cesar Olmedo/ Reuters

Durante a sessão legislativa, a deputada oposicionista Rocío Vallejo expôs a gravidade da conivência governamental: 

"Nunca antes alguém prejudicou, em um único dia, 3 milhões de pessoas na República do Paraguai, e o senhor conseguiu isso, senhor presidente... O senhor é a origem desse monstro que criou".

Prisões preventivas e pânico no sistema financeiro

A derrocada do ueno provocou abalos em cadeia no mercado financeiro paraguaio. O Ministério Público emitiu mandados de prisão preventiva e acusou formalmente 27 administradores e executivos da entidade bancária, que se entregaram à Justiça. Decisões judiciais determinaram o bloqueio de ativos e o congelamento patrimonial dos envolvidos para tentar assegurar o ressarcimento dos credores.

A corrida de milhares de cidadãos aos balcões para transferir fundos e o registro de instabilidades em aplicativos de outros bancos alimentaram temores de contágio sistêmico. Em resposta ao pânico de liquidez, a Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) divulgou nota tranquilizando a população, afirmando que a rede interbancária nacional segue em operação estável e absorvendo a migração das contas correntes. Peña ainda promulgou, em suas últimas horas de gestão, uma lei de rito emergencial desenhada para acelerar o pagamento do seguro aos poupadores lesados.

Pessoas fazem fila para tentar retirar dinheiro em banco em Assunção, no Paraguai, diante de temor gerado por crise bancária no país, em 3 de novembro de 2026. — Foto: Daniel Duarte/ AFP

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